Sunday, October 29, 2006

Noberto Kuhn, direto de Barcelona

Ola Juciano
Acompanhando teu blog e Motivado pelo debate e repercussäo da sua carta à jornalista e colunista da Folha de São Paulo Eliane Cantanhêde, escrevi o texto abaixo que agora compatilho contigo.

Aí no Brasil vcs devem estar começando a caminhar para as urnas... dqui de barcelona, acompanhamos os acontecimentos pela internet!
bons dias
Norberto Kuhn Junior



Alguém deve ter dito para a jornalista e colunista da Folha de São Paulo Eliane Cantanhêde (e deve ter sido na escola), que alguns são naturalmente melhores que outros e, pior, ela acreditou!

Essa postura, meio fundada em um deus e meio fundada em Darwin (feito este deus), confesso, näo me causa surpresa... Além do que, podem estar pesando aí questões de trajetória pessoal, de ordem psicanalítica, expressa na incapacidade de perceber o mundo para além de seu próprio umbigo, condiçäo essa a que todos estamos sujeitos a sofrer e nem todos a superar (terapias custam!!).

Entäo, sobre o fragmento citado, me volto a pensá-lo sobre como este reflete um entendimento de mundo (questões da ordem do conhecimento, já mencionadas pelo Juciano). O texto faz perceber a incapacidade da mencionada jornalista de fazer valer sobre sua própria percepção de mundo a suposta criticidade atribuida aos exigentes do sul! Tomar “classe” e “qualidades de classe” como algo dado em si (não nos revela se por condição de natureza, posição geográfica ou, até, arbítrio divino) foi seu maior equívoco epistemológico – náo o seria se estivesse no século retrasado.

Um pouquinho que fosse além destas ordens de limitaçöes (o que nos exige, é verdade, meios e recursos, além de simples força de vontade, e que, não sei se é o caso de alguma destas lhe ter faltado) já lhe tornaria possível pelo menos a perguntar-se, arriscando sua verdade (o que é condição da criticidade!!), se na condição essa de não-exigentes e de não-críticos - que assume como atributos dos do nordeste e do norte - não mora algum tipo de bom senso (inteligência, para ficar na moda), pragmática que seja, mas que vem permitindo a esses sujeitos, nos seus contextos, fazerem andar sua vida rumo à sobrevivência, senão ao sucesso (täo cobiçado pelas supostas classes médias!!!). [Porque erramos se seguimos acreditando que sujeitos são puramente manipuláveis por ofertas e promessas, como se não percebessem qualquer correspondência entre crença e o motivos da crença: algo, objetivo, ligado a cotidianidade da vida das pessoas, deve motivá-las à crença nisto ou naquilo... E dizer sobre isto ou aquilo, que esta aí na base da sua crença, como sendo lamentável, dispensável ou revelador de menos exigência e menos criticidade, é, bem o sabemos, condiçáo do exercício da capacidade de fazer valer sobre o outros uma ordens de exigência que a nós nos interessa (a isso também chamamos poder).]

Mas por que a autora do comentário em questäo náo avança criticamente? Por que se revela, neste termos, incompetente (para usar aqui esta noção ícone dos ideiais de eficiência dos exigentes do sul e sudeste, aos quais ela se alia) ao tormar o discurso sobre a realidade como realidade mesma? Será que náo o sabe? Bom, pode ser: fugiu das leituras de teoria da comunicaçäo, epistemologia, sociologia, antropologia!! Sim, pode ser, mas isso náo nos basta para explicar tal postura – manter-se neste nível de argumentaçäo só nos faria pactuar da mesma condiçáo de incompetência.

Bom, penso, a jornalista assim age porque esta encantada, assim mesmo, sob o efeito de magias! Isso de que a representaçäo nos é assumida como realidade mesma, é a mágica da contemporaneidade (operaçäo medieva, diram alguns); e a condição esta de operar tal magia não é atributo da garota essa, assim, em si mesma. É da ordem dos processos midiáticos onde opera profissionalmente. Aqui, convenhamos, a jornalista foi extremamente eficiente e competente... [muitíssimo mais eficiente do que estou sendo eu sou aqui, porque texto assim comprido náo encanta!!] Da sua incompetência epistêmica nasce sua competência mágica, midiática. A questão é que, essa profissional e tantos outros operadores dos truques da magia, estäo eles mesmos acretidando na própria mágica... [bom, a se julgar pelo lugar de importância que cabe à imaginaçäo nos rituais da vida – e que a racionalidade moderna acreditou dispensar, näo é assim, de todo mau, acreditar em Papai Noel !]

De qualquer modo, aqui revelo meu conservadorismo moderno, essa sua crença na magia, em detrimento de um mínimo de reflexividade, o que parece ser a marca no mundo da produçäo midiática, faz crescer socialemente alguns riscos: o assunto motivo desta discussão pode ser tomado como exemplo.

Vou falar das classes médias e eleiçöes, entäo, peço desculpas, vou aproveitar para me divertir um pouco.

Volto ao texto em questäo. No exercício de uma suposta netralidade informativa, sobre onde o candidato Lula deve buscar seu votos, a jornalista aponta a existência natural de dois grupos definidos de eleitores; hierarquiza os grupos a medida que “cola” a cada um deles as qualidades de “menos exigentes/criticos” e “mais exigentes/criticos” e, pirlim pim pim, faz destas idéias sobre o real, o real mesmo (tal como os monstros que certamente habitavam os mares nos idos 1500)... Dos sensos que aí construímos, é que partem, em medida significativa, as orientaçöes para as nossas decisöes, comportamentos, escolhas... A mágica exige entäo, dois poderes: o poder de falar – pouquíssimos o podem exercer (nestes termos, esta minha “fala” é praticamente inútil... é mais para cultivar o prazer da escrita) – e o poder de se fazer ouvir, sendo depositário da crença.

Aqui a grande novidade da contemporaneidade: os jornalistas estäo entre os poucos que hoje conseguem articular, na sua prática profissional, estas duas ordem de poderes; säo os novos sacerdotes da deusa ciência e näo medem esforços em se retroalimetarem destes dois poderes. Säo muitos os equipamentos de alta tecnologia, pesquisas e mais pesquisas que os servem... e vejam as eleitorais: nos revelam a realidade, inegável porque estatística! Assim, a jornalista em questäo opera sua mágica: do seu lugar de fala – um jornal – de onde é ouvida, nos mostra objetivamente quem é mais ou menos exigente em termos políticos, pois pesquisas mostram que pessoas que recebem até tantos salário (os menores), votam em Lula, e acima de tantos salário (os médios e altos), votam em Alkimim... A este atributo bem objetivo, renda - ao qual os pesquisadores tendem a colar objetivamente a idéia de escolaridade - cola-se, por operação discussiva mágica, as qualidades do ser melhor ou pior, mais exigentes ou menos exigentes.

Mas as coisas não param ai: ora, que qualidades temos coladas ao candidado que é escolhido pelos menos exigentes e menos críticos? [daí a revolta do nosso amigo Juciano, porque näo sendo do sul ou sudeste, e vortando em Lula, como ele mesmo nos revelou, acabou por somar duas condiçöes que nos permite considerá-lo menos exigente e menos crítico – qualidades que sabemos bem, estão bem longe dele!]

Uma vez qualificado quem é quem, como explicar o fato de que há uma inversão na ordem idealizada, já que os bons estão perdendo e o menos exigentes estão ganhando (pelo menos é que nos mostram as pesquisas!!)? Como explicar a possível reeleição de um governo que, supostamente, não corresponde nem às escolhas dos mais importantes, nem às exigências das classes médias do sul e do sudeste, justamente aquelas cujas exigências certamente (segundo nos dá a entender a jornalista) säo contruídas sob os fundamentos da racionalidade crítica?

Esta inversão deve ter um culpado! Obviamente säo aqueles a quem falta de capacidade crítica näo os permite perceber o que é importante e que geralmente são os mesmos que se satisfazem com exigências mediocres, tais como sobrevivência.... e que são do norte e do nordeste (coitadinhos, näo têm culpa, é por causa do clima).

[Chega ser divertido ver as classes médias chorando seu abandono, “justamente nós, os que sabemos o que é importante para o Brasil”. Tornados incompetentes pela própria lógica que admiram e defendem como meio para chegarem a ser classe alta (e assim näo precisariam se escandalizar com coisas täo “mundinho” tal como política, corrupção, caixa dois, e estas coisas para quem se contrata alguém para resolver) e, ao mesmo tempo, näo tão pobres para (imagina, deus o livre!), depender do assistencialismo do estado, as classes médias, então, chegam ao desespero! A gaúcha é um bom exemplo desse desespero! De exigente, crìtica e racional que é, pode fazer chegar ao governo do Estado do RS uma candidata que, das vezes que disputou cargos executivos (nos caso, à prefeitura de Porto Alegre), nunca ultrapassou 22% dos votos! Sem falar, que tiraram da atual disputa para o governo do Estado, o mesmo sujeito que fizeram governador nas eleiçöes passadas e que, nas primeira pesquisas de intençäo de voto, mal alcançava 6%!



Divertimentos a parte, e para concluir, vemos crescentemente a construção de um mundo ideal onde desejamos nos ver livre, por exemplo, da probreza (aqui na Europa, dos imigrantes)... Assim, tem sido recorrente na mídia vermos aqueles que sofrem a realidade da pobreza sendo arrancados dessa sua realidade, e, por efeito de magia, sendo transformadas em criminosos, isso mesmo: suas reaçöes e respostas ao mundo, violentas muitas vezes, mas näo necessariamente, longe de serem percebidas na sua condição de uma vida vivida, e uma vida melhor desejada, são apresentadas como obstáculos criminosos para o mundo dos que dizem saber o que é melhor e que, ao que parece, só cabe a eles sonhar, decidir e viver !

Criminalizadas, midiaticamente, o próximo passo será eliminá-las, mas aí, náo há só magia e Hitler nos mostrou isso ontem (paradoxalmente outros governos seguem nos mostrando o mesmo hoje). Antes, talvez, no caso brasileiro, devêssemos retornar ao voto sensitário, para homens, brancos, ricos e näo necessariamente muito escolarizados, e para os näo muito pobres, digo médios... mas, devem mostrar-se regionalmente exigentes e críticos!



Norberto Kuhn Junior

Barcelona, 29 de outubro, 12 horas.